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domingo, 25 de agosto de 2013

Carlos Paião - compositor e autor de mérito único

Carlos Paião, falecido há 25 anos, foi "um compositor e autor de mérito único", mas o começo de carreira não foi fácil, como recordou à Lusa o produtor musical Mário Martins, o primeiro a reconhecer-lhe o talento.

"Se hoje estivesse vivo, seria provavelmente o maior compositor e autor de música ligeira", enfatizou Mário Martins, que conheceu Carlos Paião por intermédio de "outro grande compositor", Manuel Paião, seu primo, autor de sucessos como "Ó tempo volta p`ra trás".

"O Carlos Paião tinha ganhado o Festival da Canção de Ílhavo, e tinha enviado uma cassete com temas seus para a Valentim de Carvalho, que nunca mereceu qualquer resposta, até que o Manuel Paião, com quem eu trabalhava regularmente, me pediu para ouvir a cassete e eu fiquei abismado, pois havia ali muita qualidade", contou Mário Martins, na altura diretor do Departamento de Artistas e Repertório da antiga discográfica.

"O Carlos [Paião] não tinha uma grande voz, mas era um extraordinário compositor e autor e, quando entrei em contacto com ele para gravar temas, disse-me que também não estava interessado em gravar", recordou.

O fadista António Mourão foi o primeiro a gravar um tema de Carlos Paião, "Fado Reguila", que "não alcançou o sucesso esperado", mas Mário Martins recorreu a uma outra estratégia - tornar Amália Rodrigues uma aliada.

Reconhecendo em Paião "características idênticas às de outro grande autor, que foi o Alberto Janes", e notando-lhe "um grande sentido de humor", Mário Martins recorreu a Amália, "o milagre português, que seria a pessoa capaz de percecionar essa genialidade".

Amália Rodrigues ouviu várias canções, "deu gargalhadas ao ouvi-las, e escolheu logo uma dúzia delas, nomeadamente `O Senhor Extraterrestre`, que gravou".

Estava dado o pontapé de saída. No dia seguinte, Mário Martins fez saber no meio radiofónico que a fadista ia gravar Carlos Paião, e os temas de sua autoria começaram a rodar.

Amália Rodrigues gravou "O Senhor Extraterrestre", num maxi-single, cujo lado B era um tema de Janes, "Ó meu irmão brasileiro" [*].

Segundo Mário Martins, "há um ou dois inéditos de Paião" que Amália gravou, entre os quais "O nosso povo".

Carlos Paião estava lançado, e começaram a surgir na rádio as diferentes canções com a sua assinatura. Concorreu ao festival da canção infantil da Figueira da Foz, com os temas "Eu já namoro" e "O meu avozinho", e a cançonetista Ana gravou temas seus.

Ana foi a primeira de muitos outros nomes como Mísia, Florência, Lenita Gentil, José Alberto Reis, Alexandra, Vasco Rafael e Cândida Branca Flor, que foi a intérprete que mais o cantou, segundo o seu biógrafo, Nuno Gonçalo da Paula.

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O primeiro disco que Carlos Paião gravou, como intérprete, incluiu os temas "Souvenir de Portugal" e "Eu não sou poeta". Colaborou na música para a revista "O Escabeche", no Teatro ABC, em Lisboa. Ganhou, em 1981, o Festival RTP da Canção, com "Playback", batendo temas interpretados por nomes como José Cid, as Doce, Maria Guinot e a dupla Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo.

Colaborou na televisão com Herman José, António Sala e Luís Arriaga, tendo sido [*] um dos criadores das personagens "Estebes" e "Serafim Saudade", para o qual compôs o repertório.

Carlos Paião, que terminara o curso de Medicina, acabou por se tornar um nome de referência na música e, em pouco menos de uma década, impôs-se como autor, compositor e intérprete, deixando "canções antológicas" que novos nomes têm recuperado. São os casos de Filipa Cardoso, Fábia Rebordão, Rui Veloso, Sam The Kid, Mesa e Tiago Bettencourt & Mantha.

O autor e intérprete de "Pó de arroz", "Cinderela", "Cartas de amor", "Refilar faz mal à vesícula", "zero a zero", "P`ras sogras que encontrei na vida", entre outras, morreu num acidente de viação, em Rio Maior, no dia 26 de agosto de 1988.

"Na sua aparente fragilidade, ele foi mais forte do que a morte, que não jogou limpo e perdeu, porque o Carlos Paião ficará sempre vivo na memória dos que o conheceram e admiraram", disse Mário Martins.

Agência Lusa, 23/08/2013

Notas

- A canção chama-se "Amigo Brasileiro" e é da autoria de Carlos Paião

- Carlos Paião não foi o criador das personagens "Estebes" e "Serafim Saudade" embora tenha feito música para as personagens Serafim Saudade (gravadas em disco) e Estebes. Fez também o hino "Bamos La Cambada" do mundial de 1986.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Histórias de um homem-menino

Foi numa altura em que Amália Rodrigues andava “meio adoentada” que o produtor Mário Martins lhe ligou a dizer que tinha consigo uma cassete de “um miúdo muito bom” para ela ouvir. “Nesse dia cheguei a casa da Amália às sete da tarde. Recordo-me dela me ter dito que não estava com grande disposição e que queria deitar-se. Eu insisti, pus a cassete a tocar e às duas da manhã ela ainda ria às gargalhadas.” O miúdo chamava-se Carlos Paião e durante oito anos escreveu e deu a gravar mais de 80 canções para os mais variados artistas. Com a mesma facilidade tanto escrevia num dia para Lenita Gentil como no outro para a personagem de ‘José Estebes’.

Para Amália Rodrigues escreveu algumas canções, mas só ‘O Senhor Extraterrestre’ e ‘O Amigo Brasileiro’ foram a ser gravadas. Das 37 maquetas que um dia escolheu para si, a diva do fado ainda se sentiu tentada a dar voz à canção ‘É Fadista’, mas teve receio de chocar o meio mais purista já que o tema era uma paródia aos fadistas. O produtor de Paião recorda, a propósito, as palavras de Amália: “Ó Mário, afinal, é melhor não gravar!”

PROJECTOS INACABADOS

Foi já depois de ter escrito a famosa ‘‘canção’’ do beijinho para Herman José e de ter editado o seu primeiro single, ‘Souvenir de Portugal’, que, em 1981, Paião venceu o Festival RTP da Canção com ‘Play-Back’, quando todos esperavam uma vitória das Doce e de ‘Ali Babá’. Já lá vão 25 nos. Depois disso partiu para uma das mais notáveis carreiras da música ligeira portuguesa, só interrompida por um trágico acidente no dia 26 de Agosto de 1988.

Diz-se que terá escrito mais de 500 canções (só as tais 80 foram gravadas), mas mais do aquilo que fez, os que o recordam com saudade gostam de falar daquilo que Paião poderia ter feito. “Eu tinha para ele um projecto para fazer uma obra rock e um musical a partir de clássicos da literatura. Para Paião, todos os projectos eram bem-vindos, mas a partir de determinada altura ele deixou de ter tempo.”

MUITO PARA DAR

Escrevia depressa e bem. Do fado à canção infantil, da balada de amor à composição burlesca escreveu de tudo para todos. Joel Branco, o primeiro artista a gravar um tema de Paião, recorda o dia em que lhe bateu à porta e encomendou um tema a atirar para o rap. “Mandou-me entrar, deu duas voltas ao piano e em 15 minutos fez a música e a letra”. O tema chamava--se ‘Ora Toma’. Para David Ferreira, director-geral da sua editora, a Emi-Valentim de Carvalho, “o Carlos teve o azar de viver quando o Teatro de Revista estava decadente: sabia trabalhar sob pressão e teria escrito muitos mais clássicos se tem vivido noutro tempo e se tem vivido mais tempo”.

Carlos Manuel de Marques Paião nasceu em Coimbra em 1957. Do seu percurso profissional não consta qualquer nota de música até 1980, ano em que troca, em definitivo, a licenciatura em Medicina pela escola da canção. A partir daí, dedica-se a uma panóplia de actividades várias sob o mesmo denominador comum: a música.

A estreia aconteceu em 1978, no Festival de Ílhavo, de onde regressou a casa com dois prémios, nomeadamente o de melhor intérprete. Em 1980, os assessores directos de Mário Martins, o homem que descobriu e catapultou a carreira de Carlos Paião, ouviram uma cassete do músico e por incrível que pareça não gostaram. “Disseram-me que ele não tinha jeito para nada”, recorda o produtor. Só não saiu um puxão de orelhas, porque depressa as evidências se encarregaram de falar por si. Foi quando o ‘Play-Back’ ganhou o Festival e Carlos Paião iniciou uma carreira sem precedentes.

Se primeiro escreveu, depois decidiu cantar. “Ele não tinha aquilo a que se pudesse chamar uma grande voz. Mas aprendeu a tirar partido dela”, comenta Joel Branco, que guardará para sempre na memória a forma como o músico tentava sempre arranjar trabalho para os seus colegas de profissão. “Quando ia a uma festa a uma terreola, perguntava sempre se já lá tinha ido fulano tal e depois deixava os nossos contactos pessoais. Eu recordo-me que tive vários espectáculos arranjados por ele.”

O FINAL TRÁGICO

Carlos Paião desapareceu num trágico acidente de viação, aos 31 anos, ironicamente esmagado pela aparelhagem e pelas colunas de som que transportava no carro, um dia depois do não menos trágico incêndio do Chiado. “Uns dias antes tínhamos estado, curiosamente, a falar dos perigos na estrada”, recorda Herman José. “A sua morte foi violenta, como a de um familiar.”

Em vida, mais do que colaboradores, Carlos Paião fez amigos. Alexandra, Pedro Couceiro, José da Câmara, Dulce Guimarães, Vasco Rafael, Nuno da Câmara Pereira, Amália Rodrigues, Carlos Quintas... a lista é quase infindável. As memórias de hoje são as de um homem-menino que gostava de rir e fazer rir. “Lembro-me dele ao telefone, em chinelos. Atirava-os ao ar e ia a correr apanhá-los, como um miúdo”, conta Ana.

Mário Martins recorda o dia em que os dois foram ao Japão. “Tocámos num dos maiores festivais do Mundo. Durante os ensaios, vimos a apresentadora, uma chinesa enorme. Carlos chamou-me e perguntou-me: Sabes como é que ela se chama?: ‘Kusuda!’”

PORQUE REFILAR FAZIA MAL À VESÍCULA

Todos são unânimes. Carlos Paião sabia como ninguém brincar com as palavras. Humor, humor e humor. Para si, rir era o melhor remédio e era essa a mensagem que fazia passar a todos, mesmo para quem não soubesse cantar ou sequer assobiar. O mais recente disco lançado pela EMI Portugal é disso um bom exemplo. Para ouvir estão alguns dos maiores sucessos do compositor interpretados por algumas das vozes que os imortalizaram, da ‘Canção do Beijinho’, de Herman José, ao ‘Quanto Mais Te Bato’, de Ana, passando por ‘O Fado é Fixe’, de Vasco Rafael.

Para quem muitas vezes disse que Carlos Paião estava à frente do seu tempo, qualquer uma das suas canções é prova bastante. Escutem-se por exemplo ‘Trocas e Baldrocas’, ‘Refilar Faz Mal à Vesícula, Mais o Diabo a Sete’, ‘Estou Velho’, ‘Fado Reguila’ ou ‘Ai que Pena’. Finalmente ‘Cinderela’, ‘Play-Back’ (que o levou ao Festival da Eurovisão, em Dublin, em plena lua-de-mel), (...), e ainda ‘Bamos Lá Cambada’ que andaria na boca de todos. “Uma sexta-feira pedimos ao Carlos um hino não oficial para a participação portuguesa no México’86 e na segunda-feira seguinte ele apareceu com o ‘Bamos lá Cambada’, que é talvez o melhor que já tivemos no nosso futebol”, recorda David Ferreira.

AS MEMÓRIAS QUE OS AMIGOS GUARDAM DELE

“ERA UM MIÚDO COMO EU" (Herman José)

“Recordo as tardes de trabalho em casa do Carlos. Passávamos o tempo a rir e levávamos raspanetes da mulher porque estragávamos a alcatifa e os móveis. Ele tinha uma cadela que ficava histérica com as nossas brincadeiras. Era um miúdo como eu”, lembra Herman José. Paião escreveu várias canções para o humorista, 12 das quais só para o personagem Serafim Saudade. O compositor chegou a participar no ‘Humor de Perdição’, a fazer de médico, profissão que nunca exerceu.

“TINHA-LHE PEDIDO UM FADO” (Ana)

Ele era “único talentoso e genial”. Ana insiste nos adjectivos para caracterizar a obra de Carlos Paião. “Ele fazia música popular sem ser brejeiro e era entendido por todos.” A morte impediu-o de fazer mais. A cantora recebeu a notícia a caminho de um espectáculo. “Foi a noite mais difícil da minha vida. Uns dias antes tinha-lhe pedido um fado.” Ana foi a primeira cantora feminina a gravar um tema de Paião. Ficou amiga de família. “Ainda hoje, a mulher dele continua a ser a minha médica.”

“SENTIA QUE IA DESAPARECER” (José Alberto Reis)

Foi com a canção ‘Palavras Cruzadas’ que José Alberto Reis participou no Festival RTP da Canção em 1989, “já a título póstumo”, recorda. A canção, curiosamente, nunca viria a ser gravada. “Conheci o Carlos Paião no Casino da Póvoa do Varzim. Foi um ano antes dele falecer. Voltámos a encontrar-nos numa discoteca no Porto e recordo-me que ficámos à conversa até de manhã”, conta o cantor. “Numa das últimas conversas que tivemos disse-me que sentia que ia desaparecer.”

“LEVAVA SEMPRE OS PAIS” (Nuno da Câmara Pereira)

“O Carlos Paião era um génio e morreu cedo como todos os grandes compositores e escritores.” Para Nuno da Câmara Pereira as memórias ainda estão muito vivas. “Recordo o facto curioso dele levar quase sempre os pais para os espectáculos.” O primeiro contacto aconteceu na EMI-Valentim de Carvalho, editora que partilhavam. Nuno da Câmara Pereira gravou três temas de Paião, mas destaca toda a obra. “Ele sabia transformar uma imagem poética numa imagem real.”

Miguel Azevedo / Correio da Manhã, 25/11/2006

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Morte de Carlos Paião

'Eu hei-de entrar para o Guiness'. Podia ter sido mais uma das trezentas músicas de Carlos Paião a chegar às lojas. Mas esta “espécie de malhão” nunca saiu da gaveta. Continua numa maqueta, na discoteca pessoal de António Sala, como revelou ao Página1 o “melhor amigo” do “genial criador de temas”, que, há 23 anos, morreu num acidente de viação.

Carlos Manuel de Marques Paião preferia “ser um bom cantor a um mau médico”. Mas foi, primeiramente, a veia vanguardista de compositor e de autor que lhe fechou, de vez, a porta do consultório, apesar do diploma de Medicina.

Após vencer vários festivais regionais de música, nomeadamente em Ílhavo – a sua terra-natal – no arranque da década de 80, o Dr. Paião aventurou-se, já de microfone na mão, no então mítico Festival da Canção. Concurso que um ano depois venceu, graças a 'Playback'.

Quando, em 1982, chega ao programa de televisão 'Foguete', de António Sala e Luís Arriaga, “já tinha bastante protagonismo, já dava nas vistas. Era diferente, avançado para a época. Só mesmo comparado, no mesmo contexto de poesia ligeira do século XX, a Ary dos Santos ou a António Variações”. Ainda assim, a voz do Despertar da Rádio Renascença admite que “a junção da coincidência televisiva e do talento criaram, a partir daí, um grande fenómeno de popularidade". Carlos Paião "ainda hoje é estimado e apreciado por jovens que nasceram após a sua morte" e esse constitui "o maior elogio que se pode fazer a um artista”.

E é assim mesmo que o eterno locutor de rádio define Paião. Às críticas da época sobre a ausência de uma grande voz, responde hoje com a definição de um “intérprete genuíno”, de “tantos e bons temas”, dos quais coloca na pole position 'Pó de Arroz'. Mas são muitos os que ainda permanecem na ponta da língua de muita gente. Talvez por isso, aquela tarde de Agosto, tenha sido de luto em cada casa portuguesa, após a notícia fatídica do seu acidente, em Rio Maior, quando regressava de um concerto em Fornos de Algodres.

“Naquele dia, parte da minha juventude, da rádio, dos espectáculos, da televisão, que fizemos juntos, ficou naquela carrinha”, recorda António Sala.

Mas, como dizia “o homem que a brincar falava bem a sério”, “a amizade é aquilo que fica depois das teias da lei. Por isso, até qualquer dia, porque da vossa simpatia, nunca mais me esquecerei”.

Joana Costa / Página1, 26/08/2011

Nota: Mário Martins já tinha falado do tema sobre o "Guiness" numa entrevista à RDP.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Carlos Paião - 1957/1988. Lançamento da obra biográfica

Boa tarde a todos.
Fiquei muito sensibilizado por ter sido convidado pela Sra. Directora da Biblioteca Municipal de Esposende, Dra. Maria Manuela Luísa Leite, para poder fazer a apresentação do lançamento do livro: “Inspirada na minha Paixão: Carlos Paião 1957-1988” e da autoria de Maria do Deserto, a quem desde já felicito pelo arrojo literário demonstrado.

Como professor de Educação Musical, em Braga, mas natural desta linda cidade de Esposende, de que muito me orgulho, e tal como Carlos Paião se vangloria da sua terra e das suas gentes, também por cá passei a minha meninice até à idade adulta. É com muito gosto que aqui estou presente para dar o meu singelo contributo e para podermos recordar esta figura ímpar da música ligeira portuguesa e tão prematuramente desaparecida do nosso convívio, vai para vinte anos a esta parte.

Parafraseando alguém de que “O homem passa mas a sua obra permanece”, isto aplica-se como uma luva ao nosso homenageado pois foi e continua a ser, para além do seu virtuosismo musical, um exemplo de valores humanos a imitar, numa sociedade cada vez mais carenciada deles.

Na sucinta análise que adiante irei descrevendo, irei debruçar-me sobre alguns pontos que achei pertinente serem focalizados. Assim, abordarei a autora do livro em questão e, de seguida, a obra do músico e compositor, completando com a apresentação de uns excertos musicais do mesmo e interpretados pelo Rúben, um jovem de vinte anos que bem poderá incarnar o espírito musical de Carlos Paião.

A autora da obra: Maria do Deserto.

O que sei da autora, é de que nada sei, ou melhor e dito por outras palavras, este é também o meu primeiro contacto com a “progenitora” desta obra. Todavia e se posso dizer algumas palavras a propósito, elas derivam mais da leitura convidativa do próprio contexto deste livro. Sei que é “repórter fotográfica, a residir no estrangeiro e apaixonada pelas letras e pela fotografia e fã e admiradora do compositor, das suas letras e músicas, apesar de nunca o ter conhecido”, citando o folheto de apresentação do Gabinete de Relações Públicas do Município de Esposende.

Como melómana, a autora terá ficado encantada com a obra musical de Carlos Paião. No livro, não deixa de ser notável a forma sui generis como o demonstra, tentando revelar múltiplas facetas do compositor, primeiro como homem e das suas ímpares qualidades humanas e, concomitantemente, na sua obra musical, onde se reflectem essas mesmas qualidades, ratificadas pelos muitos testemunhos dos seus inúmeros amigos de que se rodeou em vida e que fazem a parte final deste livro.

Se já leram ou vierem a ler esta biografia oficial do autor de Cinderela, terão chegado à conclusão de que é agradabilíssimo ir seguindo cada parágrafo do seu contexto onde a autora vai mesclando a sua própria prosa de uma forma quase poética, a que se junta a realidade da fotografia como que retrospectivando a vivência do músico-doutor.

Não serei a pessoa mais indicada para fazer uma análise e crítica estilística a este livro, mas como simples leitor apercebi-me de que a sua autora é de uma sensibilidade simples e despretensiosa, conseguindo captar o leitor ao longo das 416 pp. da obra em questão. Somos como que embalados em cada capítulo pelo romance feito de enternecimento e cuja autora abraça de uma ternura quase bucólica. De certa maneira, chamar-lhe-ia de pictórica a forma como o faz, levando-nos em cada fase do crescimento deste filho dilecto de Ílhavo, a vivenciarmos também o percurso de cada qual, ao tempo da nossa meninice.

Datas como o ter vindo ao mundo, o baptismo, as comunhões, os dias de aniversário, os tempos de escola, os jogos de criança e outros momentos que nos marcaram a todos, são pretexto para a sua autora os burilar de uma candura que a todos sensibiliza. Diria até que nestes pormenores ela é também uma artista.
Folheando o livro, a tal propósito, dei-me a contemplar o seu estilo literário na sua, e passo a citar: “…mistura arrojada de emoções, que me declaram na alma, uma realização plena… de observadora intimista, de me apoderar de pedaços da sua breve existência, fazendo-me perceber que a sua vida ainda está presente, como se aguardasse a minha vinda, para desbravar nesta homenagem o mundo mágico que nem a morte silenciou”. Ou, mais além, a ternura espelhada em: “…o seu nascimento fora como uma peça divina criada pelas mãos de Deus, que escolheu ternas fadas para a sua vida…” ou ainda “… aconchegado no regaço do colo da sua mãe, viajava numa fantástica barca intemporal, onde tudo se revelava maravilhoso e único”, pp. 46, entre muitas outras páginas carregadas de simbolismo, de pedagogia, vivência e filosofia da vida.

Os próprios subtítulos são também um convite a que sejam desbravados e assimilados no seu todo. Estão patentes em “destinos entrelaçados”, “O início da caminhada”, “A dádiva de fé”, “Mosaico de emoções”, entre tantos outros. De certa forma, o leitor como se revê em cada um deles pois são como um letmotiv da nossa própria existência humana.

Não é minha intenção revelar o conteúdo do livro pois a tal estão convidados todos os seus potenciais leitores que dele farão a análise que julguem fazer. Apraz-me apenas chamar a atenção para um e outro pormenor mais ligado à minha área profissional da música. E no que diz respeito à autora de “Inspirada na minha Paixão”, por certo que terei ficado muito aquém do que a este propósito ainda deveria e deverá ser dito. Parafraseando o título do próprio livro louvo-lhe a “Paixão” com que levou a cabo todo o processo de investigação para que fosse possível agora podermos usufruir de um melhor conhecimento do compositor de Play-back e perpetuarmos no tempo esse mesmo tempo que não lhe sobrou em vida para que fosse reconhecido no seu real valor como um artista que, diria, foi quase completo nas suas facetas de músico e compositor.

Carlos Paião: o músico e a obra.

Foi realmente uma notícia trágica a que, através da rádio e da televisão, nos atordoou a todos, naquela fatídica sexta-feira, dia 26 de Agosto de 1988. Como diz a autora, foi “…um pó de arroz que foi levado pelo vento”.

À parte o acontecimento que enlutou familiares e amigos e as especulações levantadas sobre este, ficou-nos, do compositor, a sua obra gravada por vários meios áudio - visuais e de que vamos ainda desfrutando na qualidade de cada um dos seus inúmeros trabalhos editados.

Carlos Paião é descrito pelos seus amigos como: “… uma eterna presença apesar da ausência. Um jovem prodigioso e de uma simplicidade genuína. Autêntico. Simples. Competente. Uma pessoa sempre bem disposta e de uma alegria contagiante e um retrato fiel de felicidade. Irreverente e junto dele ninguém ficava triste. Optimista e um amigo de referência com quem sempre se podia contar. Dele cita Olga Cardoso: “… derramaste amor às mãos cheias, espalhaste aos quatro ventos e acabaste por ter mais do que tinhas”.
“Compor para o autor era facílimo pois ele dava vida e cor à música com os seus textos de forma eficaz e sobretudo rápida”, assim se refere a ele Luís Filipe Aguiar, cantor e músico. “Amigo do seu amigo e de uma disponibilidade absoluta e desinteressada, ora compondo ora escrevendo ou ainda disponibilizando todos os seus meios técnicos para ajudar qualquer colega de palco. Tinha o dom de cultivar a arte de viver e a amizade e adorava crianças”. Como finaliza Filipe de La Feria foi como: “… uma estrela cadente que no céu desprende o seu lastro de luz”. Foi um trovador de sonhos”. Ah! … e um fervoroso benfiquista que mesmo em casa frente à TV não abdicada do seu cachecol encarnado!

Seria por demais cansativo debruçarmo-nos sobre tanta proficuidade e variedade da sua música que deu até para “dar e vender” a terceiros, o que demonstra o espírito de dádiva aos outros que tanto o caracterizou na sua forma de ser e estar em vida.

Musicalmente, as suas canções são de uma melodia e harmonia contagiantes e sempre adaptadas a diferentes realidades vivenciais. A título de meros exemplos na sua curta passagem compilou e compilaram-se dele alguns Álbuns como: Algarismos, O Melhor de Carlos Paião, Intervalo, os Singles, Pó de arroz, Cinderela e já posteriormente ao seu desaparecimento, Letra e Música 15 anos depois (EMI, 2003), Play-Back – Colecção Caravelas (EMI, 2004) e Perfil (Som Livre, 2007). Entre outros Compactos [Singles] salientem-se: Souvenir de Portugal/Eu não sou poeta, Play Back, Pó de Arroz/Gá-gago, Marcha do peão das Nicas/Telefonia nas Ondas do Ar, Zero a Zero/Meia Dúzia, Vinho do Porto, Vinho de Portugal, com Cândida Branca Flor, O Foguete, Versos de Amor, Arco Íris, Discoteca, Cinderela, Cegonha e Quando as Nuvens Chorarem.

Não me quereria substituir a qualquer site da NET pois os meus ouvintes por certo encontrarão quase tudo o que há que ver e dizer sobre este compositor de sorriso sempre aberto.

Os seus pontos altos foram o 1º lugar no Festival RTP da Canção de 1981, com a canção Playback , numa altura em que este certame representava uma plataforma para o sucesso e a fama no mundo da música portuguesa. Já aqui se notava uma crítica divertida, mas contundente, aos artistas que cantam em playback. Com este tema representaria o nosso país em Dublin no Festival da Eurovisão desse mesmo ano.

Para além desta participação esteve ainda em muitos outros festivais quer em Portugal quer no estrangeiro. Em 1985, concorreu ao Festival Mundial de Música Popular de Tóquio, tendo a sua canção sido uma das 18 seleccionadas entre mais de 2000 representativas de 58 países!

O seu altruísmo na música fez com que lhe fossem encomendadas muitas outras músicas como foi o caso do próprio Herman José e que viriam a alcançar um grande êxito como a Canção do Beijinho. Amália Rodrigues cantou dele O Senhor Extra-Terrestre (1982).

Compositor, intérprete e instrumentista, Carlos Paião produziu mais de quinhentas canções, tendo sido homenageado em 2003, com um CD comemorativo dos 15 anos do seu desaparecimento. Já em 2008, por altura da comemoração dos 20 anos do desaparecimento do músico, vários músicos e bandas reinterpretaram temas do autor na edição de um álbum de tributo, “Tributo a Carlos Paião”.

Ao rever uma cena do filme Amadeus galardoado com vários Óscares da Academia de Cinema, Salieri, músico da corte austríaca e acusado injustamente de ter envenenado Mozart, no hospital de Psiquiatria onde estava internado e cujo capelão o visitara para que este se confessasse, o músico já envelhecido mas ainda cioso do seu presumível talento faz um acordo com o padre. Que se confessaria se este soubesse identificar algumas das (suas) músicas e que supostamente teriam tido tanto êxito, na altura. Após algumas tentativas ao ouvido duro do capelão, este não distinguiu qualquer daquelas. Irritado, Salieri tocou então uma simples melodia de Mozart e logo o clérigo a trauteou. De certa forma, e passe a comparação, ainda hoje quaisquer dos temas de Carlos Paião são do domínio e conhecimento popular e a sua identificação, passados todos estes anos, é quase momentânea.

Se me perguntarem quais as músicas que mais me atraíram eu destacaria duas, entre muitas outras: Cinderela e Pó de Arroz. São autênticos poemas ao despontar do amor na adolescência e a sua letra e música são de uma beleza, candura e enternecimento ímpares. Por isso e antes de finalizar, vou convidar o Rúben para que lhe dê a alma que elas realmente merecem.

Com mais este precioso contributo da autora deste livro, por certo que o meus caros ouvintes e possíveis leitores poderão ficar a ter uma visão mais abrangente da vida e da obra deste grande músico que se repercutiram nos seus poemas e nas suas músicas.

Finalizo com as palavras de Maria do Deserto, a sua autora: “ A morte é a única certeza na vida. Contudo, quando ela chega, deixa nos que ficam, um profundo sentimento de espanto…”.

Um até já, Carlos Paião.

Muito obrigado a esta ilustre plateia pela gentileza da vossa presença nesta sessão de apresentação e parabéns à autora de “Inspirada na minha Paixão” – Carlos Paião 1957-1988.

Biblioteca Manuel de Boaventura (Esposende),  21/03/2009

Lino Rei

Sessão de apresentação do livro “Inspirada na minha Paixão” – Carlos Paião 1957-1988.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Concerto no Soito

CONCERTOS MÍTICOS – CARLOS PAIÃO NO SOITO

Carlos Paião nasceu em Coimbra, no dia 1 de Novembro de 1957 e faleceu num acidente de viação, no dia 26 de Agosto de 2008, a caminho de um espectáculo em Penalva do Castelo, na antiga EN1. Carlos Paião, sobretudo a partir do momento em que conquistou o 1.º lugar no Festival RTP da Canção, passou a ser muito solicitado para espectáculos, essencialmente no mês de Agosto.

Poucos dias antes do seu abrupto desaparecimento esteve no Soito, onde proporcionou um dos melhores concertos a que tive oportunidade de assistir.

Esse concerto aconteceu no dia 7 de Agosto de 1988.

Carlos Paião era compositor, autor e intérprete das suas próprias composições. Era muito activo, sendo que em 1978 já tinha escritas mais de 200 canções, embora nenhuma tivesse sido gravada, ainda.

Os seus temas tinham muito humor, mas andavam muito longe daquilo que se convencionou chamar música pimba.

As Festas de S. Cristóvão, no Soito, no ano de 1988, tiveram como atracções Lena D’Água, Adelaide Ferreira, Carlos Paião, Jorge Fernando e José Cid.

Acompanhado pela Banda Pátria, que ainda hoje existe como grupo de baile, Paião interagiu muito bem com o (difícil) público do Soito, tendo conseguido cativar muito bem.

O seu principal reportório, no qual se incluíam êxitos como “Gá gago”, “Marcha do Pião das Nicas”, “Pó de Arroz”, “Zero a Zero”, “Cinderela” e outros, fez parte do concerto do Soito.

Carlos Paião, licenciado em medicina, nunca exerceu a profissão de médico, tendo-se dedicado totalmente às cantigas. Apesar disso era uma pessoa de muito bom trato e afável. Foi isso que demonstrou, também, no Soito, quando comeu no restaurante das Festas e foi “importunado” por um grupo de foliões, como se pode ver num vídeo que circula na internet.

Nessa mesma noite actuou a banda de Jorge Fernando, que tinha abandonado o fado (ele que foi guitarrista de Amália Rodrigues) para se dedicar à música ligeira.

Após a actuação da banda de Jorge Fernando, seguiu-se a actuação de Carlos Paião e a sua banda, no mesmo palco, onde estavam montados os dois sistemas de sonorização e instrumentos musicais.

No final do concerto de Carlos Paião, este resolveu chamar ao palco Jorge Fernando e a sua banda, para, todos em conjunto (numa espécie de “jam session”) interpretarem um tema da autoria do autor de “Play Back”. Confesso que já não me recordo de qual tema foi interpretado pelas duas bandas, mas ficou-me isso na memória. Este facto só comprova a grande humildade de Carlos Paião. Ao ter convidado para partilhar o palco com ele demonstrou que não pessoa para grandes vedetismos e que era capaz de ser solidário com a banda que actuou antes dele. Se se referir que o concerto de Jorge Fernando não correu muito bem, ainda teremos que aplaudir mais a atitude de Carlos Paião. Não são todos os artistas que fazem isso, já que as pequenas intrigas e invejas também fazem parte do meio artístico português.

Por acaso estava eu em Lisboa, quando ouvi, numa rádio, a notícia do acidente que vitimou Carlos Paião.

Não pude deixar de recordar que ainda há bem pouco tempo o tinha visto no Soito, num espectáculo fantástico.

Viva Carlos Paião!!

Por: Aristides Duarte Nova Guarda, 12/11/2008

http://www.novaguarda.pt/noticia.asp?idEdicao=154&id=9281&idSeccao=1931&Action=noticia

Imagem e video em Jornal Cinco Quinas

domingo, 28 de fevereiro de 2010

João Gobern

Pelo sonho é que vamos? Seja. Permita-se então que se abra esta conversa, longe de estar acabada, com uma convicção que, infelizmente, nunca poderá transformar-se em objecto de prova - se Carlos Paião fosse vivo e tivesse mantido a qualidade de produção, tanto para uso próprio como para partilha com os seus próximos, do seu curto percurso como profissional, a musica portuguesa não teria sido obrigada a tolerar as aberrações e disparates com que se viu forçada a conviver nos últimos anos.

Caso dos "pimba", os de recorte meloso (ser romântico é outra coisa, certo?) ou os de perfil brejeiro, para não lhe chamar ordinário como se calhar mereceriam. Mas também das "bands", de "boys" ou de "girls", recrutadas pela fotografia de corpo inteiro e não pelo microfone ou por quaisquer outros talentos que se percebam em disco ou em palco. De resto, havia algo de ironicamente premonitório na canção que mostrou Paião ao grande público: "Podes não saber cantar / Nem sequer assobiar / Concerteza que não vais desafinar / em play-back". Quantos reconhecemos capazes de caberem neste pré-aviso, muito mais hoje do que há duas décadas, quando "Playback" ganhou o Festival da RTP?

Mas como poderia um só homem ter travado os "ventos adversos"? Como seria possível a Carlos Manuel de Marques Paião, nascido a 1 de Novembro de 1957, em Coimbra, combater tendências e estrelinhas de pés de barro, que só serviram para baixar o nível médio daquilo que a produção nacional globalmente nos oferece? A resposta é surpreendentemente linear: à data da sua morte, Paião era o mais sólido dos valores da música ligeira portuguesa, sendo também um dos seus mais jovens praticantes. Tinha percebido que a popularidade nada tinha de incompatível com a qualidade, com a aventura, com a mordacidade, com a inteligência. Daí que, apesar das centenas de canções que mantinha "na gaveta" e que mostrava aos mais íntimos, sentado diante do inseparável orgão em que compunha e esboçava os primeiros arranjos, nunca perdesse de vista um filtro apertado, uma bitola de exigência que a si mesmo impunha e que nunca baixou, mesmo nos anos em que o deslumbramento o empurrava para se deixar cair em tentação. Hoje, sabendo do seu desaparecimento prematuro, até podemos lamentar que tenha deixado menos de uma dúzia de singles e dois álbuns, "Algarismos" e "Intervalo", o último dos quais já com edição póstuma. Mas Carlos Paião, que nem teve tempo de ensaiar aquilo a que agora chamaríamos com pompa e circunstancia "a gestão de carreira", era um rigoroso e implacável administrador do seu talento, preferindo passos seguros a saltos mal calculados.

Ele era assim, directo e transparente, na música, como na vida. Começou a escrever canções aos sete anos, revelou-se num festival de província (em Ílhavo, para ser preciso) quando já estava a caminho de se tornar medico, profissão que as cantigas nunca o deixaram exercer. Confessava, aliás, que preferia ser "um bom músico a um mau médico". Chegou à sua editora de sempre com a humildade que nunca despiu e, ao menos uma vez, teve a sorte do seu lado: a cassete com as suas criações foi parar às mãos de Mário Martins, um teimoso descobridor de vocações que nunca se impressionou com os cepticismos iniciais dos "juízes" e com os preconceitos habituais face ao género. Concorreu ao Festival da Canção em 1980 com "Amigos Eu Voltei" que, não lhe valendo a glória, começou a contribuir com a frescura e a segurança do tema, se lhe fixasse o nome. Os capítulos seguintes romperam, de vez, com o anonimato. Primeiro quando as suas canções foram ouvidas e "aprovadas" por Amália Rodrigues que, caso raro, gravou mesmo "O Senhor Extra-Terrestre". Depois, logo em 1981, quando venceu de forma clara, ultrapassando favoritismos pré-fabricados, o Festival RTP: com o bem disposto "Playback".

Tinha 23 anos e "furava" o sistema que já então privilegiava antiguidades como postos e, no campo oposto, inventava vedetas meteóricas condenadas a durar apenas os três minutos de uma canção.

Os anos imediatos, se bem que lhe fossem vaticinados tropeços e quedas, foram de constante crescimento. Escreveu e publicou clássicos como "Pó de Arroz" (que, insisto, é uma das mais belas do património português) e "Discoteca" (que chegou a ser tema de uma aula de Português ... no Brasil), deu largas ao seu domínio perfeito da Língua em "Marcha do 'Pião das Nicas" e"Zero-A-Zero", demonstrou como a ingenuidade também faz falta à vida em "Os Namorados" ou "Canção dos Cinco Dedos". E deixou uma das criações que, de forma superior, retrata uma parcela de Portugal e do seu povo - a genial "Vinho do Porto" que, ainda hoje, ninguém percebe como não ganhou o Festival RTP de 1983. Esse tema bastaria, afinal, para lhe dar razão na defesa que fazia da música ligeira, desde que se mantivesse próxima de quem a consumia e, em simultâneo, não optasse pelas vias rápidas do facilitismo e da produção "a metro". Em entrevista, foi capaz de chegar à síntese perfeita para explicar o casamento entre a acessibilidade e a riqueza, nas melodias como nos textos. "O simples dá muito mais trabalho. Complicar e baralhar é muito mais fácil"... Ainda desta vez tinha razão não perdendo consciência dos "riscos" que esse lema implicava perante uma "intelligentsia"' carregada de dogmas e de vendas nos ouvidos.

Paralelamente. Carlos Paião já se afirmava como o único legítimo e brilhante descendente de uma tradição musical- a da sátira, a do humor. O grande cómico português das últimas décadas, Herman José, não hesitou em recrutá-lo para uma (então) reduzida equipa de criativos, pedindo-lhe letras e músicas para ajudar a dar vida e graça a alguns dos seus personagens de eleição. Paião escreveu quase todo o material que ajudou a dotar de dimensão nacional e a erguer como caso mediático O inesquecível Serafim Saudade, que chegou a gravar um disco em nome próprio, na sequência do programa "Hermanias", em 1984. Dois anos mais tarde, Paião tomou conta do não menos notável José Estebes, garantindo-lhe as canções que se ouviram ao longo da série "Humor de Perdição". De resto, aproveitando a colocação privilegiada do comentador nortenho no universo futebolístico, havia de ser Paião a escrever o "hino", não oficial mas popular, da selecção nacional de futebol que foi ao México para competir no Campeonato Mundial -"Bamos Lá Cambada", de melhor memória do que os jogos propriamente ditos.

Carlos Paião foi sempre um parceiro íntegro, um convicto esgrimista das suas ideias e um óptimo colega. Quando alcançou o estatuto de valor seguro, foi atirado para 0 papel de vítima de uma "febre" em que os agentes de contágio eram precisamente os cantores que queriam, a todo o custo, contar com "uma coisinha do Paião" para ajudar a disparar os respectivos trabalhos. Nunca se iludiu - sabia que a generosidade acabava par lhe ser prejudicial, mas lá foi distribuindo canções a meio mundo, de Nicolau Breyner a António Mourão, passando par muitos outros. Nunca abdicou do seu combate pela valorização da música ligeira e da musica portuguesa em geral: recordo, por exemplo, a tarefa ciclópica a que meteu ombros, sintonizando durante dias inteiros os canais de rádio existentes para poder demonstrar, com estatísticas documentadas, que a percentagem de produção nacional neles difundida se traduzia num evidente atropelo a uma lei de protecção que nunca foi cumprida e, agora, esta perdida numa qualquer "prateleira" carregada de pó e de esquecimento.

Tinha 30 anos quando, a caminho de um dos 100 espectáculos que cumpria anualmente, vetando sempre o "playback" que tantos louros garantiu a outros, uma estrada traiçoeira lhe cortou a obra e a vida. Nos termos actuais, dir-se-ia que dispunha de uma "margem de progressão" que acabaria por justificar a inclusão nos seus discos de um autocolante que chegou a estar pensado para o seu segundo álbum - referiria o aparecimento da "nova musica ligeira", por oposição aos que a tinham deixado envelhecer e decair. Não houve tempo: Carlos Paião morreu a 26 de Agosto de 1988, no dia seguinte ao incêndio que matou 0 velho Chiado lisboeta. Mas, se aquele retiro da alma lisboeta demorou tantos anos a ressuscitar, talvez fosse preciso também este intervalo para voltarmos a cruzar-nos com as melhores canções de um autor maior, matéria-prima mais do que suficiente para se dizer que sobrevive e continua a render um autêntico manual de boa música, não se perdendo o carácter "alternativo" que, já à época da sua publicação, representava no panorama português.

Este disco - "PERFIL" - que traz de volta Carlos Paião é, necessariamente, uma homenagem a um artista que nem mesmo a classe, que tão eficazmente representou e tão energicamente defendeu, soube preservar - se calhar, está-nos no sangue esta terrível herança do esquecimento... Mas julgo que, se ele ainda tivesse uma palavra a dizer sobre a forma de ouvir aquilo que nos deixou, juntaria ao sorriso meio tímido o conselho de uma audição atenta e sem preconceitos, capaz de reconhecer os méritos a quem nunca se interessou por personificar uma moda mas nunca desistiu de fazer as coisas a seu modo. Pego, de novo, no discurso directo: "Faz-me alguma confusão o desprezo com que se olha a musica ligeira - ela é um veículo importante para as pessoas da província que, para mim, começa a vinte quilómetros de Lisboa. (...) Acredito nos méritos desta musica, que só é maltratada em Portugal, onde ainda não se entendeu a necessidade de admitir um espaço próprio para ela, onde os 'snobs' tomaram conta de uma boa parte da crítica e podiam, ao menos, ouvir os discos que lhes são oferecidos antes de escreverem, então, bem ou mal."Esta conversa, a tal que não acaba, tem uns quinze anos. Mas, se pudéssemos continuar a dar voz activa ao Carlos Paião, não acredito que esta firmeza se tivesse esboroado. Muito pelo contrario: mesmo que o seu combate continuasse a parecer quixotesco, ele continuaria a manifestar-se contra os (falsos) gigantes dos moinhos que, é ponto assente, nos moem a paciência e o juízo.

Tenho saudades do Carlos. E, percebo melhor agora, também tinha saudades de o ouvir.

João Gobern
(texto incluído no livreto do disco "Perfil" de 2007)
Nota: o texto que o jornalista João Gobern escreveu aquando da morte de Carlos Paião, no jornal "A Capital", aparece publicado na reedição de 1991 da compilação "O Melhor de Carlos Paião".

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

António Sala

«Conheci o Carlos Paião algum tempo antes do lançamento daquele que viria ser o seu 1º disco. Foi-me apresentado por dois amigos, um infelizmente também já desaparecido, Henrique Amoroso. O outro foi o Produtor Mário Martins, grande responsável pela sua descoberta e principal impulsionador de toda a sua carreira discográfica.

Logo aí nasceu uma amizade muito forte e uma enorme ligação afectiva e de trabalho entre mim e o Carlos Paião, que se estendeu igualmente às nossas famílias. Foi um privilégio para mim e o Luís Arriaga trabalhar em televisão na área criativa, com o Carlos. Foi muito estimulante, porque a sua capacidade inventiva era tão grande e de tanta qualidade, que nos obrigava a ir aos nossos limites e a desenvolver as nossas aptidões para o conseguir acompanhar minimamente.

Os nossos maiores esforços eram para o Carlos coisas absolutamente fáceis de ele fazer.

Tinha uma veia criadora invulgar, como guionista, poeta e músico. Um compositor e autor simplesmente fantástico. Nos espectáculos era de um enorme profissionalismo. Tinha o seu espectáculo meticulosamente montado. Era de uma seriedade de processos imbatível. Cuidados levados ao extremo com as suas equipas, o som, as luzes, o reportório, a imagem, a sua forma divertida de comunicar. Aquele estilo meio tímido, meio brincalhão, resultado de uma inteligência invulgar e com intuição do equilíbrio perfeito e único num homem muito culto.

No seu quotidiano era uma pessoa "loucamente" divertida. Sabia criar muito bom ambiente e era muito amigo dos seus amigos. Gostava de pregar partidas aos que o rodeavam.

Apesar de uma grande timidez, o Carlos vencia por vezes essa sua característica, com posturas que se poderiam considerar "politicamente incorrectas". Tinha enormes qualidades, destaco a seriedade, lealdade, sentido de justiça e espírito solidário.

Apesar de ter uma licenciatura em medicina, sempre que o consultávamos sobre assuntos relacionados com saúde "fugia" do tema a sete pés. Brincava de forma descomplexada com aquilo que considerava a sua "falta de vocação" e apontava logo para a sua mulher, a Dr.ª Zaida - também ela médica - para ser ela a responder a qualquer dessas questões. Se insistíamos com ele gracejava dizendo coisas do tipo "...tu queres mesmo é morrer! Não tens amor nenhum à vida! Queres mesmo que seja eu a tratar-te? OK, vamos lá tratar do burro" e outras frases do género.

Tinha todas as receitas, mas para a "medicina" da música, para isso sim, tinha sempre os melhores "remédios" em notas musicais e poemas ou textos. Felizmente estão aí para se ouvir e ler. Como são fantásticos e intemporais. Carlos Paião foi um artista genial e um homem maravilhoso. Uma das melhores pessoas que passou pela minha vida.

Ainda hoje choro a morte deste amigo e o seu desaparecimento foi dos momentos mais dolorosos que vivi. Sobram-me felizmente muitas e boas recordações. Espectáculos que fizemos juntos em Portugal e no estrangeiro. Também televisão e muita rádio.

O Carlos valorizou o meu programa "Despertar" com participações que foram inesquecíveis. Ficam entre nós vários discos, canções e acima de tudo a cumplicidade de ter partilhado uma amizade única com um homem e artista de talento único. Carlos Paião é um dos melhores criadores musicais do século XX no nosso País.»

António Sala

(Prefacio do livro "Inspirada na Minha Paixão - Carlos Paião 1957-1988")

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Maria do Deserto


O SEU MUNDO

“A morte é a única certeza na vida. Contudo, quando ela chega deixa, nos que ficam, um profundo sentimento de espanto!”

Hobbies levados a sério

Natural de Penafiel, há mais de 40 anos que Maria do Deserto se dedica igualmente à pintura. Esta foi outra forma de expressar a sua arte. Uma forma que a escritora e fotojornalista admite ser um hobby mas que, nem por isso, é deixada de levar a sério. Já foram dezenas as exposições com a assinatura desta artista.

UMA INSPIRADORA PAIXÃO

MARIA DO DESERTO, ASSOCIADA E AUTORA DA BIOGRAFIA OFICIAL DE CARLOS PAIÃO

Fala com... e de paixão. Sobretudo, Maria do Deserto fala com a paixão de quem ama o que faz. De quem vê na arte uma das mais nobres formas de expressão, de comunicação... provavelmente até de sobrevivência. Quando a editora Literatura em Movimento a convidou para escrever a biografia oficial de Carlos Paião, o artista português autor de músicas tão carismáticas como "Pó de Arroz", "Cinderela" e "Play-Back", a multifacetada escritora abraçou logo o projecto.

É que apesar de pessoalmente não conhecer o artista, admite que sempre admirou o seu trabalho. As letras das músicas eram absolutamente fantásticas, sobretudo pela ligação que muitas vezes fazia ao universo infantil. Hoje, com a obra concluída, conta que passou a admirá-lo também enquanto ser humano.

A verdade é que 20 anos depois da sua trágica morte, em 1988, nenhuma biografia de Carlos Paião havia sido editada. E a responsabilidade de ser a primeira a fazê lo não inibiu Maria do Deserto, que abraçou o universo do cantor, indo ao encontro de familiares e amigos para a recolha de depoimentos. Não tive qualquer entrave na realização desta obra.

As pessoas que contactei foram extremamente solícitas participar. Desde a viúva aos pais, passando pelos amigos. Todos se disponibilizaram . A obra contém testemunhos de pessoas que se foram encontrando, ao longo do tempo, com Carlos Paião. Podemos assim encontrar familiares, amigos de infância e de profissão e pessoas relevantes no mundo artístico como António Sala, Ramón Galarza, Simone de Oliveira, Nicolau Breyner, Carlos Quintas, Pedro Couceiro, Pedro Calvinho, Henrique Feist, Olga Cardoso, Tozé Brito, Luís Andrade (RTP) Bagão Félix, Luís Filipe Aguiar, Lenita Gentil, Florência, Ana, Mara Abrantes, Peter Petersen, Luís Arriaga, Rui Nova, Herman José, Filipe La Féria, Rui de Carvalho ou Joel Branco. E porque assegura Maria do Deserto a escrita é um imenso mar de paixões e ambições que vale a pena viver , os projectos literários não vão parar por aqui. Apesar de não abrir totalmente a cortina, Maria do Deserto lá nos confessou ter vários projectos entre mãos, nomeadamente outra biografia, além de um livro para crianças, de resto a sua grande paixão.

Susana Marvão
REVISTA MONTEPIO 39, Outono de 2009

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Tributo a Carlos Paião

Tributo A Carlos Paião (CD, Farol, 2008)

01. Rui Veloso - Cinderela
02. Tiago Bettencourt e Mantha - Pó de Arroz
03. Donna Maria - Vinho do Porto
04. Filipa Cardoso & Fábia Rebordão - Cegonha
05. Pólo Norte - Eu não sou Poeta
06. Perfume - Versos de Amor
07. Balla - Não há duas sem três
08. MESA - Senhor Extraterrestre
09. Loto - Telefonia
10. M.A.U. - Ga-gago
11. Sam The Kid - Playback (Instrumental)
12. 4Taste - Playback
13. Oioai - Discoteca

Tributo

Spot

Paião revisitado 20 anos depois da sua morte

Para assinalar 20 anos sobre a morte de Carlos Paião, é editado um tributo ao cantor dos anos 80, onde 13 artistas da nova geração - como Tiago Bettencourt, Donna Maria ou Mesa - prestam homenagem ao compositor de Playback. As únicas excepções são as presenças de Rui Veloso e Pólo Norte.

Carlos Paião morreu a 26 de Agosto de 1988, vítima de um acidente de viação, tinha apenas 30 anos. Mas o seu legado tornou-se um dos mais importantes para a música pop nacional, mesmo que a sua carreira tenha sido bastante breve. "É um músico que ficou no imaginário popular", referiu Rui Veloso ao DN, que em Tributo a Carlos Paião fez uma versão do muito conhecido Cinderela. O músico contou como conheceu Paião: "estava ele na Valentim de Carvalho, a tocar piano, sendo que assinámos contrato curiosamente na mesma altura".

Ao DN David Benasulim, A&R da editora e um dos responsáveis por este projecto, referiu que "a estratégia para este disco" foi "buscar sangue novo aos vários quadrantes da música nacional e a partir daí construir algo harmonioso, respeitando sempre o repertório de Carlos Paião". E ao longo dos treze temas que preenchem este tributo poderão ouvir-se artistas de hip hop, de fado, de punk, da electrónica até à pop/rock mais convencional.

O eclectismo de Carlos Paião foi uma das características apontadas por Miguel Majer, membro dos Donna Maria, que reinterpretaram Vinho do Porto. "A criatividade dele era muito forte, navegava em várias águas, em vários estilos. Foi mesmo um excelente letrista e compositor", referiu o músico.

David Benasulim confessou mesmo que esta compilação vem "reflectir o espírito ousado e brincalhão de Carlos Paião".

No tributo tanto estão presentes os temas de maior sucesso do compositor, como por exemplo Cinderela, Pó de Arroz ou Playback, como outros que o músico compôs para vozes alheias. É disso exemplo O Senhor Extra-Terrestre, que foi interpretado originalmente por Amália Rodrigues e que agora foi recriado pelos Mesa.

JOÃO MOÇO/Diário de Notícias, 30/09/2008

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Há Vida Depois da Morte

Na sua aparente fragilidade ele foi mais forte do que a morte, que não jogou limpo e perdeu, porque ele ficará sempre vivo na memória dos que o conheceram e admiraram".

A frase pertence a Mário Martins que em 1978 descobriu Carlos Paião, para muitos um dos melhores compositores portugueses da segunda metade do século XX, o homem do "Play-Back", das "Trocas e Baldrocas", do "Pó de Arroz" e dos "Versos de Amor", capaz, como (muito) poucos, de escrever, num dia uma canção para Herman José e no seguinte uma outra para Amália Rodrigues, sempre com o mesmo invulgar sentido melódico e de domínio da língua portuguesa.

Carlos Paião desapareceu num trágico acidente de viação, aos 31 anos, ironicamente esmagado pela aparelhagem e pelas colunas de som que transportava no carro, faz hoje precisamente 15 anos, um dia depois do não menos trágico incêndio do Chiado.

Nessa mesma tarde em que tudo aconteceu Amália Rodrigues definia, com simplicidade, emocionada, à agência Lusa, o autor de "O Senhor ExtraTerrestre", fado que gravara seis anos antes: "Ele era uma pessoa cheia de talento e de vida".

Qualidades invulgares

E pouco mais (que já é muito) haverá para recordar ainda hoje senão o talento e a alegria de viver daquele que, na opinião de David Ferreira, director-geral da sua editora, a EMI-Valentim de Carvalho, "sempre revelou uma invulgar mistura de talentos artísticos e qualidades humanas".

Para aquele responsável "há muito poucos letristas na música popular portuguesa tão bons como Carlos Paião" e acrescenta: "Se me pedissem seis ou sete nomes de escritores de canções que os mais novos deveriam estudar não hesitaria em referir o Carlos", diz.

No dia 26 de Agosto de 1988, a actriz Magda Cardoso, que participara no júri do concurso "Com Pés e Cabeça" juntamente com Carlos Paião, confrontada com a morte do cantor, afirmava, por seu turno, que jamais deixaria de ser sua amiga. “As pessoas desaparecem mas não morrem no nosso coração". E assim tem sido. Desde sempre. Carlos Paião continua bem presente na memória colectiva de um País que cedo se deixou render a canções como "Play-Back", "Souvenir de Portugal", "Marcha do Pião das Nicas", "Prás Sogras que Encontrei na Vida", "Cinderela", "Vinho do Porto" e "Pó de Arroz".

Ironia do destino, ou não, o facto é que Carlos Paião vendeu mais depois da sua morte do que em vida. Curiosamente, hoje chamam--no artista, o rótulo ao qual sempre fugiu. Segundo dados da Associação Fonográfica Portuguesa a verdade é que os principais galardões de Carlos Paião datam dos anos posteriores a 88. Antes disso só mesmo o single "Play--Back" havia atingido a marca da prata e do ouro. Tudo o mais veio depois da sua morte, nomeadamente em 89 com o single "Quando as Nuvens Chorarem" - prata (20 mil cópias) e ouro (30 mil), em 90 com o álbum "Intervalo" - prata, em 91 e 92 com "O Melhor de Carlos Paião" - prata e ouro respectivamente, e, já este ano, "Letra e Música 15 anos depois" - prata e ouro.

“Hoje seria brilhante”

Gravado por nomes tão diferentes como Herman José, Dina, Cândida Branca Flor, Amália Rodrigues, Nuno da Câmara Pereira, Trio Odemira, Octávio de Matos e Joel Branco, Carlos Paião talvez nunca tenha recebido em vida o mérito que merecia, mas hoje o seu talento é reconhecido por todos.

"Como intérprete, acho que o Carlos nunca vendeu na medida do talento que tinha, mas devo dizer que, como autor e compositor, era ainda muito superior e a melhor homenagem que hoje lhe posso prestar é não fugir à verdade", declara Tozé Brito, Administrador da Universal Music Portugal, que conheceu Carlos Paião quando este escreveu a "Canção do Beijinho" para Herman José, então artista da Polygram. "Foi na escrita que ele foi totalmente inovador. Se hoje fosse vivo não tenho dúvida de que seria um dos compositores mais requisitados. Seria brilhante".

A propósito, David Ferreira recorda a prontidão e a rapidez com que Carlos sempre escreveu, simplesmente com talento, e lembra um episódio. "Uma sexta-feira pedimos-lhe um hino não oficial para a participação portuguesa no México 86 e na segunda-feira seguinte ele apareceu com o 'Bamos lá Cambada', que é talvez o melhor que já tivemos no futebol", confessa o administrador da EMI que, ainda hoje se emociona quando pensa no dia 26 de Agosto de 1988.

"Nesse dia houve uma rádio que me ligou a pedir-me um depoimento e eu lembro-me de que, no meio da entrevista, tive de parar para chorar a morte de um homem que sempre me fizera sorrir".

TOZÉ BRITO: NUNCA O VI MAL COM A VIDA

“Ele tinha uma alegria de viver muito grande. Não me lembro de ter visto o Carlos Paião mal disposto uma única vez. Nunca o vi de mal com a vida. Era uma pessoa extremamente positiva. Como músico era brilhante e a sua morte foi uma das maiores perdas para a música pop. Pouca gente escreveu para a Amália Rodrigues, e ele fê-lo. Recordo-me daquele dia bem de mais. Ouvi a notícia da sua morte quando ia na estrada. Estava na ressaca dos meus anos (o meu aniversário é a 25) e só pensei que podia acontecer-me a mim”.

NUNO DA CÂMARA DE PEREIRA: ESCREVIA COM NINGUÉM

“Fiz vários espectáculos com o Carlos Paião e por várias vezes partilhámos o mesmo palco. Era uma pessoa extremamente dedicada à família e chegava a levar os pais para os espectáculos. O Carlos era um grande compositor, que sabia escrever como ninguém e dominava até o vocabulário mais popular. Dele gravei os temas originais ‘Não Cantes Esse Fado’ e ‘A Marcha do Castelo’. Na altura da sua morte, o Carlos era o artista com quem mais convivia. Naquele dia achei que tinha morrido um ‘puto’. Foi um choque”.

ANA BOLA: MUITO ORIGINAIS

“Guardo as melhores memórias do Carlos Paião. Curiosamente, era uma pessoa muito tímida, mas observadora. O que me lembro dele é que era uma pessoa muito bem educada e muito bem formada. Fiz parte do coro do ‘Play-Back’ e nesse ano ganhámos o Festival da Canção. Foi uma experiência muito engraçada porque o Carlos tinha acabado de se casar e foi de lua-de-mel para o Festival da Eurovisão. Hoje, acho que se deve recordar a sua obra profissional porque fez na música ligeira algo de muito original”.

Miguel Azevedo / Correio da Manhã - 26/08/2003

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Inspirada Na Minha Paixão Carlos Paião 1957-1988


Testemunhos, fotografias do próprio e dos seus objectos, partituras, cópias dos cadernos de Matemática. Está tudo reunido num livro que conta a vida da Carlos Paião.

A autora de "Inspirada na minha paixão – 1957-1988" é uma fã da mesma geração de Paião e pretende, com a obra, cumprir "a homenagem que falta" ao artista.

Maria do Deserto, repórter fotográfica é uma confessa apaixonada pelas letras e pela fotografia, nasceu três anos depois de Carlos Paião. Afirma que a "paixão e admiração pelas letras e músicas" do "artista" foram uma constante na sua vida, apesar de nunca o ter conhecido. A autora lamenta que o país nunca tenha homenageado Carlos Paião, "um artista com características raras no panorama português".

A ideia de reunir em livro a curta vida de Paião surgiu há cerca de dois anos. A obra reúne testemunhos dos familiares mais próximos do músico, desde que nasceu, em Coimbra, e da sua vida, primeiro em Ílhavo e depois em Lisboa.

Maria do Deserto identifica Paião como "um bebé bem disposto" e um adulto com um sentido de humor "muito grande" que não conhecia a palavra "não". “Um ser humano sempre pronto para ajudar toda a gente, que ensinava os colegas de escola".

Maria do Deserto define Carlos Paião como "um anjo que passou pela Terra e que em pouco tempo cumpriu a sua missão". Durante a execução desta obra, a autora recorda que teve momentos em que necessitou "de se afastar para chorar".

O capítulo mais difícil de fazer foi o da morte de Carlos Paião, explica a autora.

A biografia conta também com um capítulo com testemunhos dos pais, da viúva e de outros familiares próximos do artista, bem como, testemunhos de algumas personalidades "que se cruzaram com Paião" como Simone de Oliveira, Ramón Galarza, Nicolau Breyner, Ruy de Carvalho, Pedro Couceiro, Filipe La Féria, Olga Cardoso, Bagão Félix, Herman José, entre outros.

Com prefácio de António Sala, a biografia de Carlos Paião é apresentada hoje no Centro Cultural de Cascais, a terra onde vivem os pais do artista. O livro é publicado pela Literatura em Movimento.
«Inspirada Na Minha Paixão Carlos Paião 1957-1988» é a primeira obra de Maria do Deserto, uma fotojornalista que desenvolve trabalhos também na área da pintura e da escrita.

Edição em capa dura, inclui fotos a cores em papel de elevada qualidade. Inclui CD-ROM interactivo.
A obra contem testemunhos de varias pessoas que se foram encontrando por uma razão ou por outra ao longo do tempo com Carlos Paião, podemos assim encontrar familiares, amigos de infância e de profissão e pessoas relevantes no mundo artístico tais como António Sala, Ramon Galarza, Simone de Oliveira, Nicolau Breyner, Carlos Quintas, Pedro Couceiro, Pedro Calvinho, Henrique Feist, Olga Cardoso, Tozé Brito, Luís Andrade (RTP), Bagão Felix, Luís Filipe (Aguiar), Lenita Gentil, Florência, Ana, Mara Abrantes, Peter Petersen, Luís Arriaga, Rui Nova, Herman José, Filipe La Féria, Rui de Carvalho, Joel Branco.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Zaida Cardoso

Quem não se lembra do "Play-back", da "Canção do Beijinho", da "Marcha do Pião das Nicas" ou da "Cinderela"? Músicas de Carlos Paião que agradaram e continuam a agradar pequenos e graúdos de hoje e de outros tempos. Conheça melhor o artista que marcou a música portuguesa.

Carlos Paião, cantor e compositor português, foi um dos artistas mais multifacetados do seu tempo e deixou profundas marcas na música portuguesa. Compôs todo o tipo de músicas desde temas galardoados no Festival da Canção ("Play-back"), ao hino [não oficial] da Selecção Portuguesa de Futebol em 1986 ("Bamos lá, Cambada!"), passando pelos êxitos do conhecido Serafim Saudade.

A 26 de Agosto de 1988 Carlos Paião perdeu a vida num trágico acidente, a caminho de um espectáculo em Leiria, na antiga EN1, actual IC2. Na altura, surgiu o boato de que na ocasião do seu funeral não estaria morto mas sim em coma, no entanto a violência do acidente por si só nega o boato, já que a sobrevivência seria impossível. O boato sobre o facto de o artista ter sido sepultado vivo permanece até aos dias de hoje mas, em entrevista ao SAPO, Zaida Cardoso, viúva de Carlos, explica que era impossivel ele ter sobrevivido ao acidente.

Antes de morrer, Carlos Paião estava a preparar um novo álbum intitulado "Intervalo", que acabou por ser editado em Setembro desse mesmo ano, e cujo tema de maior sucesso foi "Quando as nuvens chorarem", tema favorito de Zaida Cardoso com quem esteve casado 7 anos.

Hoje, passados 20 anos da sua morte, é lançada uma biografia oficial com toda a história de Carlos Paião.

Reportagem: Rita Afonso e Frederico Batista / Sapo 03/12/2008

Video

http://videos.sapo.cv/bSiqlG9YOHdcYaWroFAK

Cassete com os temas "Quando As Nuvens Chorarem", "Perfume", "Cegonha" e "Lá Longe Senhora". http://joaocomemasfala.blogs.sapo.pt/2007/12/

sábado, 16 de maio de 2009

Letra e Música: 15 anos depois


Letra e Música: 15 anos depois (Compilação, EMI, 2003)

CD 1

01. Play-Back
02. Souvenir De Portugal
03. Ga-Gago
04. Zero-a-Zero
05. Marcha Do "Pião Das Nicas"
06. Meia -Duzia
07. Telefonia Nas Ondas Do Ar
08. Tenho Um Escudo A Minha Frente
09. Não Há duas Sem Três
10. Prás Sogras Que Encontrei na Vida
11. Refilar Faz Mal à Vesícula, Mais o Diabo a Sete
12. Quatro Maços (É Só Tabaco)
13. O Foguete
14. Vinho do Porto (Vinho De Portugal)
15. Eu Não Sou Poeta
16. Cinderela
17. Lá Longe Senhora
18. Só Porque Somos Latinos
19. Perfume
20. Muito Mais

CD 2

01. Pó De Arroz
02. Discoteca
03. Quando as Nuvens Chorarem
04. Versos De Amor
05. Mar De Rosas
06. A Razão
07. Cegonha
08. Os Namorados
09. História Linda
10. Caiu Redonda no Chão
11. Canção dos Cinco Dedos
12. Arco Íris
13. Lobo do Mar
14. Intervalo
15. Bailarina (Nunca te Direi)
16. De Mão em Mão
17. Caminhar

Imagens/Design: Transglobal

Redescobrir Carlos Paião em duplo CD a lançar segunda-feira

"Redescobrir Carlos Paião" 15 anos após a sua morte é a proposta da EMI-Valentim de Carvalho, que lança segunda-feira um duplo-CD com 37 temas da autoria do cantor, entre eles um inédito.

"A ideia não é um vulgar 'best of`, mas antes chamar a atenção para o tamanho do talento do Carlos Paião", disse à Lusa David Ferreira, da EMI-VC.

O duplo CD "é praticamente a integral do Paião", incluindo o inédito "Caminhar" - "uma espécie de apontamento áudio, isto é, o Carlos tinha uma ideia para uma canção e registava-a de imediato".

Os projectos da editora, que faz uma aposta forte no lançamento deste duplo CD, passam ainda pela gravação de temas do cantor por artistas portugueses."Não no sentido de um tributo a... Mas que nos seus CD a lançar este ano incluam um ou outro tema do Paião, que têm uma actualidade musical extraordinária", esclareceu David Ferreira. A proposta da editora "é que as pessoas redescubram a obra do Carlos".

O nome de Carlos Paião saltou para a ribalta da cena musical portuguesa em 1981 com o tema "Souvenir de Portugal" (incluído neste duplo CD), após o que, nesse mesmo ano, venceu o festival RTP da canção com "Play Back". No ano anterior a sua interpretação de "Amigos voltei" não impressionara o júri do Festival RTP.

"Play Back" obteve o 14º lugar no Festival da Eurovisão e vendeu em Portugal 80.000 cópias.

A ligação de Carlos Paião à EMI-VC deve-se "ao ouvido atento do [produtor discográfico] Mário Martins", que, ao escutar a terceira maquete que Paião enviou à editora, "achou que (...) não era apenas um tipo com piada".

David Ferreira sublinhou "o talento maior de Carlos Paião, por vezes subtil, mas sempre incisivo, e o casamento perfeito entre palavras e música que as suas canções demonstram".

Carlos Paião, "apesar de não saber escrever música, foi um génio para inventar", disse à Lusa Mário Martins, que produziu a maioria dos seus discos.

"O Paião tinha um talento único, de uma imaginação sem limites, capaz de escrever tanto canções mais sérias como

bem-humoradas. O seu senso de humor era em tudo idêntico ao de Alberto Janes", rematou, referindo-se ao autor de "Oiça lá ó senhor Vinho" e "A casa da Mariquinhas".

Mário Martins lembrou ainda que, por sua iniciativa, Amália Rodrigues ouviu uma cassete com temas de Carlos Paião. "Gostou tanto que quis logo gravar alguns deles, eu divulguei isso na imprensa e o nome dele rapidamente saltou".

De Carlos Paião, Amália Rodrigues gravou "Senhor Extraterreste" em 1982.

LUSA

O HOMEM DO PÓ-DE-ARROZ

Tendo Carlos Paião desaparecido há 15 anos, há uma geração ou duas, que nunca privou de perto com aquele que é, seguramente, um dos mais admiráveis, talentosos e divertidos compositores, sem pretensão a ser artista, da música portuguesa. Por isso

nunca nos vamos referir a ele nesses termos. Ele não era artista, nem era poeta, como gostava de referir.

Escreve David Ferreira, na nota introdutória do disco "Carlos Paião Letra e Música 15 anos depois", que hoje chega ao mercado nacional, que Paião "podia ter sido revolucionário, mas não era coisa que lhe interessasse".

PÁGINA DE OURO

E a brincar a brincar, sobretudo com as palavras, Carlos Paião escreveu uma página de ouro na música pop portuguesa e algumas das mais conhecidas canções da música nacional, algumas delas mais populares do que o próprio hino-nacional. E é fácil perceber porquê!

"Pedia-se-lhe à sexta um hino não-oficial para a selecção e à segunda vinha o 'Bamos lá Cambada' (...) Faltava-nos um lado B para o "Play-back" e dava-nos (só) o 'Pó-de-Arroz'", escreve o administrador da editora Emi-Valentim de Carvalho.

À data da sua morte, a 26 de Agosto de 1988, Carlos Paião deixou 500 canções escritas, das quais apenas perto de 50 foram gravadas. Cada uma delas é o espelho de um homem que gostava de fazer rimas e trocar-lhes as voltas, versar o simples e provocar o riso. “Meia-dúzia/Fui sair co’uma medúsia/ Fomos comer carcanhóis/ Pevidinhas e termóis/Regadinhos com tin tóis/Que eu não vou em futebóis (...) Ela pediu-me: hás-de compôr uma canção chamada Meia-Dúzia e eu... compuse-a”, canta no tema “Meia-Dúzia”.

“Eu defendo que o difícil é trabalhar o simples sem dar cabo dele. Complicar e baralhar é bastante mais fácil”, dizia Carlos Paião.

Miguel Azevedo / CM 31/03/2003

Agradecemos à Maria a sua sugestão para uma reedição do primeiro LP de Carlos Paião, Algarismos. Como deve ter reparado, a Som Livre editou há pouco tempo uma compilação deste artista. Qualquer lançamento mais abrangente terá de ser feito em parceria com a EMI Music, que detém as gravações do artista posteriores a 1983 (incluindo singles como "Discoteca" e o segundo LP, "Intervalo") e que lançou há alguns anos aquela que julgamos ser a "edição definitiva" deste artista, o CD duplo "Letra e Música - 15 Anos Depois".

Do Tempo do Vinil 21/01/2008

É a compilação (2 discos) que representa melhor a carreira de Carlos Paião. No disco 1 inclui "as rápidas" e no disco 2 "as lentas". Inclui 18 temas editados em formato single, 7 temas de "Algarismos", 10 temas de "intervalo" (o disco na sua totalidade), 1 tema com Herman José (Serafim Saudade) e o inedito "Caminhar".

Outras Compilações :

Cantigas da Telefonia 1981-1983 (1983) [Carlos Paião/Candida Branca Flor]
O Melhor de Carlos Paião (Compilação, EMI, 1985)
O Melhor de Carlos Paião (Compilação, EMI, 1991) 2CD
Os Singles (Compilação, EMI, 1993) caixa Carlos Paião (3cd)
Pó de Arroz - Colecção Caravela (Compilação, EMI, 1996)
Cinderela - Colecção Caravela (Compilação, EMI, 1997)
Play-Back - Colecção Caravelas (Compilação, EMI, 2004)
Perfil (Compilação, Som Livre, 2007)
Grandes Êxitos ()

A compilação "Perfil", lançada em 2007, inclui apenas canções até 1983 (8 temas de singles e 6 temas do álbum "Algarismos").

quarta-feira, 29 de abril de 2009

João Carlos Callixto

O Carlos Paião está longe de ser um dos meus artistas preferidos, mas há que reconhecer que foi um intérprete e compositor de grande e bem diversificado talento. Sem dúvida, um dos nomes mais importantes da música ligeira portuguesa.

Carlos Paião é, porventura, o único compositor/intérprete, nos anos 80, a revitalizar a canção ligeira portuguesa, que desde o 25 de Abril padecia de mal crónico e que desde a sua morte voltou a padecer do mesmo problema...

8 de Março de 2008

http://guedelhudos.blogspot.com/2008/03/dia-mundial-da-floresta.html

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

As Canções de Carlos Paião


AS CANÇÕES DE CARLOS PAIÃO (EMI, 2006)

01. Trocas E Baldrocas - Cândida Branca Flor
02. A Canção Do Beijinho - Herman José
03. O Senhor Extraterrestre - Amália Rodrigues
04. Play-Back - Nonstop
05. Refilar Faz Mal À Vesícula, Mais O Diabo A Sete - Os Carrapatos
06. Quanto Mais Te Bato - Ana
07. Sol Maior - José Alberto Reis
08. Eles Foram Tão Longe - Lenita Gentil
09. A Gente Cresce, Cresce - Joel Branco
10. Tudo Acabou - Alexandra
11. Não Me Cantes Esse Fado - Nuno da Câmara Pereira
12. Eu Já Namoro - Pedro Couceiro
13. Ai Fadinho - José da Câmara
14. Ai Que Pena - Mísia
15. Estou Velho - Nuno da Câmara Pereira
16. Lá Longe Senhora - Dulce Guimarães
17. Fado Reguila - António Mourão
18. O Fado É Fixe - Vasco Rafael
19. Viver, viver (Chamar A Toda A Gente Meu Irmão) - Carlos Quintas
20. Bamos Lá, Cambada! - Herman José com Alexandra, Luís Represas, Dany Silva e Carlos Paião

FAIXA BÓNUS Cinderela - Carlos Paião

Em 2006 é editada uma compilação com alguns dos temas escritos para outros artistas e algumas versões dos seus temas.

resumo do disco: 14 colaborações; 4 versões (se considerarmos "Ai Fadinho" de José da Camara); 2 inéditos anteriormente gravados (Misia/José Alberto Reis) . Inclui também "Cinderela" que tinha sido a canção vencedora do concurso da RTP.

Informação constante do site da Rádio Renascença respeitante ao programa António Sala à conversa com João Gobern e Mário Martins sobre Carlos Paião:
Sábado, 25 de Novembro de 2006

Carlos Paião: Um programa para recordar um ícone dos anos 80 em Portugal!

25 anos depois de "Play-Back", António Sala convida o jornalista João Gobern e Mário Martins, que descobriu o músico, para recordar o enorme talento de um dos maiores ícones dos anos 80 em Portugal!

E de facto, nunca saberemos até onde poderia ter ido com o seu talento. Ele que soube, como ninguém, juntar às palavras a música. E, à música, a sua alegria de viver. “Play-Back”, “Pó de Arroz”, “Cinderela” são apenas alguns exemplos da sua criatividade.

Carlos Paião nasceu a 1 de Novembro de 1957 em Coimbra. Aos 5 anos começou a ter lições de acordeão e a partir daí a música nunca mais deixou de o acompanhar. Cresceu a tocar, a cantar e a compor.

A música acabou por se tornar o seu modo de vida, apesar de ter estudado para ser médico. A Medicina foi ficando sempre para trás. Em 1979, era ainda um desconhecido, tinha já guardados na gaveta cerca de 200 temas com possibilidades de vencer no mercado. O primeiro não demorou a ser editado. Chamava-se "Canção do Beijinho" e foi interpretado em 1980 por Herman José!

Romântico, bem-humorado, Carlos Paião só se tornou verdadeiramente popular com “Play-Back”, a canção que o levou ao Festival da Eurovisão em 1981. O single vendeu 80 mil exemplares e depressa se tornou nº1 do “Top” nacional.

Carlos Paião foi autor de muitos temas que outros celebrizaram. Eram dele a música “Bamos lá Cambada”, as canções de Tony Silva ou de Serafim Saudade! E não se limitou à canção. Eram da autoria de Carlos Paião muitos dos “gags” que Herman José celebrizou na TV. Para a Renascença escreveu muitas das "Bocas" do programa “Despertar”.

Em 1982 Amália gravou um maxi-single com dois temas de Paião: “O Senhor Extra-Terrestre” e “O Amigo Brasileiro”. Nicolau Breyner também cantou os seus poemas. Bem como Alexandra, Joel Branco, Dina, Trio Odemira, Carlos Quintas ou António Mourão.

Mas de todos, Cândida Branca Flor foi provavelmente a artista que mais cantou Carlos Paião.

Nos 25 anos de "Play-Back" a EMI decidiu lançar um CD com muitos desses artistas a interpretar essas músicas. Chama-se “As Canções de Carlos Paião”.

Paião morreu a 26 de Agosto de 1988, no dia seguinte ao incêndio do Chiado. Por incrível que pareça, das 500 canções que compôs ao longo da sua carreira, só 50 foram gravadas! E Carlos Paião morreu, ironicamente, um dia depois do grande incêndio ter destruído o arquivo histórico da EMI-Valentim de Carvalho que, como se sabe, foi a editora a que esteve sempre ligado.

Nos anos 80 não será de mais dizer que em Portugal toda a gente sabia cantar (ou pelo menos assobiar!), algum tema de Carlos Paião. É sem dúvida um ícone dessa década que merece a homenagem na Renascença.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Nuno Gonçalo da Paula

Carlos Paião faria no próximo dia 1 de Novembro 51 anos. Recordo esta figura da canção portuguesa quando se completam 20 anos da sua morte (26 de Agosto de 1988) e do lançamento do último trabalho, o LP “Intervalo”, e 30 anos da vitória no festival da canção de Ílhavo (15 de Dezembro de 1978).

Existem pessoas que passam na vida do mundo e que deixam a sua marca, não pela longevidade da sua idade, mas por se destacarem dos demais, com uma espécie de marca de água, que se vê através da luz.

Um desses nomes é Carlos Paião que, embora nascido em Coimbra, foi um ilhavense de alma e coração. A sua vida de trinta anos – de um rapaz aparentemente comum – foi uma estrela cadente que passou.

Alguns tiveram o privilégio de lhe tocar com as mãos, e muitos têm o gosto de a ver no céu das suas vidas.

Que há de anormal na vida de um rapaz que o destino levou quando a vida ganha verdadeiramente fôlego e se desenha em traços largos?

Numa época em que qualquer pessoa canta, representa, e é moda ser vedeta (seja por que motivo for), este rapaz simples deixou um legado que ainda hoje é difícil compreender e explicar na soma de trinta anos de vida.

Médico de formação, autor de inspiração, cantor de talento, Carlos Paião cedo manifestou os seus dotes artísticos. Era com facilidade que jogava com as palavras, delas tirava o partido dos sons e dos seus duplos sentidos.

As suas canções (algumas centenas) percorrem vários géneros musicais, o que desde logo é notável. Autores há que se se especializam numa determinada área da criatividade e por lá ficam.
Carlos Paião, porque desprendido de tudo o que é formal, ora escrevia uma canção de humor (para Herman José ou Raul Solnado, por exemplo), ora sentimental (para Cândida Branca Flor), ora canções alegres como o “Senhor extraterrestre”, de Amália, que esteve num livro de leitura da escola, ora temas telúricos de rara beleza, e lembre-se “Eles foram tão longe” ou “Lá longe, Senhora”.

Recordado a obra deste homem, poderá ver-se nas cantigas uma técnica de estranho nome: a do “bolo de bolacha”. As suas obras são para toda a gente: para o intelectual que lê nas entrelinhas a crítica que o autor quer fazer, para os ouvidos comuns, que acham a letra muito bem feita e não raramente começam a trautear a música, e até para as crianças, que lhe acham muita graça.

As crianças foram sempre público fiel e encantado de Carlos Paião.

Muitas vezes se fala na precocidade e genialidade do músico. Nada de mais verdadeiro.

Mas há, possivelmente, naquilo que escreveu – frutos intemporais e de safra que aparecem de tempos a tempos –, raízes profundamente portuguesas.

Há nele um toque de Alberto Janes, outro tanto da música popular portuguesa, e ainda alguma coisa dos seus antepassados paternos e maternos que se apaixonaram também pela música, sendo o melhor exemplo o primo Manuel Paião.

Este autor ilhavense, conjuntamente com Eduardo Damas assinou umas boas dezenas de sucessos, como “Ó tempo volta p’ra trás”. São estas raízes que mais valorizam Carlos Paião. Muitas vezes os artistas, por força da sua intenção de se valorizarem, pretendem ser absolutamente originais.

Mas... como tudo o que nasce sem raiz acaba por flutuar no ar e é levado pelo vento.

Paião enraizou-se bem naquilo que de melhor tem a música portuguesa e a língua pátria e depois, sim, fez o seu caminho, de afirmação artística, com uma profunda originalidade, talento e generosidade.

Será dos traços mais belos do seu carácter. Nunca guardou o melhor que tinha para si mesmo, ele que também foi intérprete. Partilhou, ajudou e motivou muitos artistas portugueses, muitos deles ainda por aí, nos palcos. Tudo isto num rapaz cuja vida se suspendeu aos trinta anos.

Avesso a vaidades, simples no trato e rigoroso em tudo quanto fazia, Carlos Paião passaria neste ano de 2008 os seus cinquenta e um anos de vida, trinta anos depois da vitória no Festival da Canção de Ílhavo e vinte depois do seu LP “Intervalo”.

Foi efectivamente um intervalo, o de Carlos Paião. Os intervalos são sempre para descanso do artista, porque a segunda parte é sempre a melhor.

E a de Carlos de Paião é sem dúvida a melhor: é a da paz, do reconhecimento em pequenos e grandes, mais novos ou menos novos, do seu trabalho como artista: fresco, leve, mas sempre com mensagem e sentimento, e também como homem. Disse um dia Fernando Pessoa que “partem cedo os que os deuses amam”.

Permitam-me que diga que Carlos Paião estará junto de Deus, no Seu Tempo, certamente ensinando a querubins e serafins novas melodias de louvar a Vida, ele que a viveu na verdade e generosidade e estará de sorriso nos lábios, porque sempre amou a Vida, e contra ela nada nem ninguém pode coisa alguma (nem a morte).

Nuno Gonçalo da Paula, 2008

(também publicado no Correio do Vouga e Notícias de Setúbal)

Nuno Gonçalo da Paula prepara actualmente um trabalho sobre Carlos Paião, no 30.º aniversário da sua vitória no Festival da Canção de Ílhavo e 20 anos após a sua morte. (Correio do Vouga, 26 de Agosto de 2008)