terça-feira, 19 de março de 2013

Os últimos dias de Carlos Paião

Um dos cantores e compositores mais populares da década de 80 sofreu um terrível acidente de carro há 25 anos. A SÁBADO falou com o homem que seguia ao seu lado naquele dia

Por Tânia Pereirinha/Sábado, 19/03/2013

Tinham passado os últimos dois dias em casa, a descansar; um verdadeiro luxo, sobretudo por se estar em Agosto. Faziam uma média de 60 espectáculos por ano, grande parte deles concentrados naqueles 31 dias, em que os emigrantes voltavam a casa com os bolsos cheios de notas para oferecer à associação de festas das aldeias. Entre 1981 e 1987, chegaram a ter 26 ou 27 espectáculos naquele mês. O ano de 1988 não estava a ser assim tão exigente.
Como combinado, a meio da manhã de sexta-feira, dia 26, Carlos Paião, 30 anos, arrancou da casa onde vivia, em São Domingos de Rana, com a mulher, Zaida, e o cocker Yazamuri (ou Yari, como lhe chamava por ser mais fácil), e parou em Caxias, à porta do amigo e técnico de som Jorge Esteves.

Era um dia especial: Elsa, mulher de Jorge, fazia 24 anos; e a viagem que se preparavam para fazer, para um concerto em Penalva do Castelo, seria a última da velha carrinha Datsun Urvan, em que já tinham feito quilómetros suficientes para dar uma série de voltas a Portugal. Mas, ao contrário do que era habitual, Carlos estava pouco animado.

Não fez nenhuma referência à nova carrinha, com muito mais espaço e um pequeno beliche, que já tinham encomendado. Nem sequer deu os parabéns à amiga, que no fim-de-semana anterior tinha atormentado ao volante, durante uma viagem ao Alentejo, em que cantou, riu, acelerou e discorreu sobre o livro que andava a ler: a história de uma rapariga que sofre um acidente de carro e tem uma experiência de quase morte.

“Pode parecer daquelas coisas que se dizem só porque sim, mas a verdade é que naquele dia o Carlos estava muito esquisito”, recorda à SÁBADO Jorge Esteves.

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Depois de apanharem o também colega e amigo Carlos Miguel Sousa, puseram-se a caminho. Jorge, a pedido do intérprete de 'Playback', 'Cinderela' e 'Pó-de-Arroz', passou para o volante. “Alternávamos sempre os dois; o Carlos Miguel não conduzia.

Estava um calor daqueles! Quando cheguei ao Carregado tirei a T-shirt e fui a guiar assim. Eles iam os dois a dormir.” É das últimas coisas de que se recorda: “Passado um quarto de hora estava sentado no alcatrão, a acordar, com um monte de pernas à minha volta, cheio de sede.”

Já dentro da ambulância, Jorge avisou os bombeiros de que a carrinha levava mais dois passageiros. Passou por quatro hospitais nesse dia e os médicos chegaram a ponderar amputar-lhe um pé. Quando lhe disseram que os amigos estavam em Vila Franca de Xira, ficou aliviado: “Estão melhores do que eu, senão também tinham vindo para Lisboa.”

Nesse dia, a mulher de Carlos Paião foi a Caxias, falar com a de Jorge: “Diz ao Jorge que eu sei que ele não teve culpa.”

Elsa preferiu manter o marido na ignorância: o técnico de som só soube que Carlos Miguel e Carlos Paião tinham morrido dois dias depois, já o País sabia da morte inesperada do compositor e vencedor do Festival da Canção da RTP em 1981.

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Os óbitos foram declarados ainda na Estrada Nacional 1, na zona de Rio Maior, cerca das 15h, apenas um dia depois do também histórico incêndio do Chiado. O cantor – que, recordam os amigos, era muito espiritual, acreditava na vida depois da morte e, por isso, gostava de dizer que nunca desapareceria – não resistiu à violência do embate frontal da Datsun Urvan com um camião que circulava em sentido contrário. Só o lugar do condutor ficou mais ou menos intacto. O acidente fará 25 anos em Agosto.

Para assinalar a data, a EMI lançou este mês uma colectânea dos 37 melhores temas compostos e interpretados por Paião (há um inédito: 'Caminhar').

Carlos Manuel Marques Paião nasceu a 1 de Novembro de 1957, em Coimbra, filho de uma professora e de um piloto de barra, que anos antes se dedicara à pesca do bacalhau. Viveu em Ílhavo até aos 6 anos, altura em qu se mudou com os pais para a zona de Oeiras.

Catorze anos depois, foi no Festival da Canção da cidade onde aprendeu a tocar harmónica e onde tentou fazer o mesmo com o acordeão (a professora acabou por desistir porque ele preferia tocar de ouvido a ler as pautas) que se iniciou no mundo da música. Ficou em primeiro lugar, assinou um contrato exclusivo com a Valentim de Carvalho e começou a ponderar deixar o curso de Medicina, na Universidade Nova de Lisboa. Acabou por não o fazer. Mas nunca exerceu a profissão, nem sequer em casa, para ajudar os amigos.

“Às vezes, se tínhamos algum problema, íamos ter com ele. A mulher dele também era médica, ouvíamos sempre a mesma resposta:

‘Queres curar-te ou queres morrer? Se queres morrer, consulta-me; se te queres safar, fala com a Zaida’”, recorda António Sala.


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De acordo com o locutor, que trabalhou com Paião na Rádio Difusão Portuguesa e também no 'Foguete', na RTP (um programa de

humor nonsense passado num comboio em que Carlos Paião fazia de maquinista tresloucado, António Sala de pica-bilhetes e Luís Arriaga de barman), a boa disposição do músico era constante. Apesar da timidez, adorava pregar partidas aos amigos, como quando incendiou uma folha de papel que Sala tinha nas mãos e estava a ler em directo.

Outra vez, às 4h, em casa, depois de ser repreendido pela mulher, que queria que ele e os colegas fizessem menos barulho e tocassem mais baixo, levantou-se com ar bem-comportado e rodou o botão do volume... para o máximo. E houve inúmeras ocasiões, na RDP, em que se virou para o amigo locutor e lhe perguntou: “Que disco vais pôr a seguir?”, apenas para o tirar da prateleira e partir ao meio: “Agora vais ter de escolher outro!”

Não consta que o tivesse feito com alguns dos 13 singles e dois LPs que editou ao longo da curta (mas prolífera) carreira, entre 1981 e 1989. Mais do que um intérprete, recordam amigos e colegas, Paião era um compositor exímio que gostava de palavras. Andava sempre com um dicionário de rimas debaixo do braço e era capaz de escrever, com a mesma rapidez e facilidade, letras infantis, humorísticas, românticas ou pungentes.

“Uma vez estávamos em casa e apareceram uns tipos da rádio, atrapalhados porque precisavam de uma música para o programa da manhã do dia seguinte. Já devia passar das 23h, o Carlos agarrou-se a uma folha de papel e ao órgão e num instante passou-lhes a música para a mão”, conta Jorge Esteves.

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Amália Rodrigues, Herman José, Joel Branco, Rodrigo, Cândida Branca Flor, Carlos Quintas, Lenita Gentil, Vasco Rafael e Fafá de Belém foram apenas alguns dos que o cantaram. “Se ele tivesse continuado, tenho a certeza de que hoje seria dos nomes mais procurados para escrever neste país. Tinha um talento incrível”, diz à SÁBADO Tozé Brito.

Para o compositor e administrador da Sociedade Portuguesa de Autores – que partilhou com Paião os bastidores das edições de 1981 e 1983 do Festival da Canção e do programa Hermanias, de 1984 –, o talento do autor de Playback com as palavras só seria comparável, à época, com o de José Carlos Ary dos Santos. “Naquela altura havia pouca gente a escrever bem. E as músicas boas do Carlos Paião nem sequer são estas, as que o povo canta...”

Ao contrário de Ary dos Santos, cuja predilecção por gin (puro, não tónico) era conhecida, Carlos Paião não tocava em álcool.

Também não fumava e irritava-se com os amigos quando, nas maratonas que faziam pelo País, de concerto em concerto, fumavam dentro da carrinha. Esta e passar a vida a cofiar a barba – que se recusava terminantemente a fazer – eram as únicas esquisitices que se lhe conheciam.

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Na estrada, sempre fez questão de ser tratado como os colegas da equipa técnica, o que tanto podia incluir comer frangos de churrasco meio crus dentro da carrinha em que viajavam com o material, como participar em torneios de matraquilhos com viseenses, nas Festas de São Mateus; ou até dormir no chão das salas de emigrantes portugueses em França ou na Alemanha, porque não havia dinheiro para pagar hotéis.

Na altura, explica Tozé Brito, o sucesso de um artista era medido sobretudo a partir do número de espectáculos que dava e dos programas para que era convidado: “O Carlos vivia só da música e o que recebia chegava e sobrava para viver bem. Calculo que recebesse cachês de 50 ou 60 contos [250 ou 300 euros] por espectáculo. Apesar de nunca ter sido um grande vendedor de discos, ia sempre para o top. E estava no grupo dos eleitos pelo público, fazia parte da primeira divisão dos convidados para a rádio e para a televisão”.

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Na RTP, além de Foguete e de Hermanias, participou em 'Humor de Perdição' (1988), também com Herman José. Ficaram amigos. “O Carlos tinha um talento total, um carácter de granito, uma alegria deliciosamente infantil. As nossas sessões de trabalho acabavam invariavelmente no chão da sala, a brincar com a cadela dele”, revela o humorista.

Apesar de ser recordado essencialmente por ter ganho o Festival da Canção com uma música em que criticava as vedetas que cantavam em playback, com a ajuda de um coro que incluía Ana Bola de fato-de-macaco de cetim amarelo, Carlos Paião é responsável por alguns dos maiores êxitos de Herman José.

“Bamos lá cambada, todos à molhada que isto é futebol total”? Letra e música de Carlos Paião. “Serafim, Serafim Saudade, aqui estou e, na verdade, sei que sou o que sonhei”? Letra e música de Carlos Paião. “Ora dá cá um e a seguir dá outro, depois dá mais um, que só dois é pouco”?

Letra e música de Carlos Paião.

“A Canção do Beijinho ajudou a mudar-me a vida. No ano da sua saída, atingi a pole position das vedetas contratáveis para espectáculos populares”, assume Herman.

Por Tânia Pereirinha/Sábado, 19/03/2013


1 comentário:

WB disse...

Espero que goste

http://www.youtube.com/watch?v=up6ViT2wDDU